Tipos do jornalismo atual (notas para personagens)

editor neotropicalista é a encarnação do ideal do “criticar aderindo e aderir criticando”.Vai a todas a festas, mas se sente como um antiburguês no meio dos burgueses, um subversivo que esparrama graxas avançadas nas engrenagens da Estrutura. Continue lendo “Tipos do jornalismo atual (notas para personagens)”

Carmelita

Das raparigas que freqüentavam os postos de gasolina nas noites quentes do norte do Brasil, à procura de oferecer seus serviços sexuais aos caminhoneiros, poucas eram tão vivas e inteligentes como Carmelita. Recusava a estrela da miséria na testa, diferente da maioria daquelas meninas que se vestem com roupas vermelhas e sandálias incertas antes de perambularem ao redor das máquinas estacionadas. Continue lendo “Carmelita”

Fala ao dramaturgo (um esboço)

ATOR – Por que tanta dificuldade em objetivar as coisas? Estou aqui, senhor D. Sou pago para ajudá-lo. Só percebi isso há pouco tempo. Mas minha contribuição é grosseira. Eu não diria como tantos: “Lave um tanque de roupa suja”. Eu sei que seu trabalho não é apenas espiritual, dá suadeira na madrugada, pesadelos, refluxos do jantar tardio. Sem nenhum moralismo preciso dizer: “Há quanto tempo não anda pelas ruas? Não conversa com mutilados?” “Não se aprende tanto com isso”, você pode responder. Mas como atuar além da abstração: a imagem precisa? Meu corpo está aqui, disponível, à espera. Se já não interessam homens e coisas, então para que precisa de nós? Faça o senhor mesmo o papel – a desfiguração. Ou a crítica da peça não escrita. Vai continuar quieto? Peça ajuda. Não é preciso embaraço. Isso é comum de onde eu venho, entre gente da minha classe. É também brutal: a necessidade da ajuda. (Indica uma atriz) Venha, mais perto, senhorita. “Por favor?” (A atriz se aproxima.) Ela é o senhor. Seremos sua dificuldade. De algum modo fui salvo por isso, pelo teatro. O que acha da cultura, Leon? Não é bom esse nome? Será o dela e o seu, a partir de agora. (Sussura.) Fui salvo pela cultura, Leon… (sóbrio) mas tem alguma coisa de errado, de mentira nisso. A cultura como salvação é isolamento. (Pausa.) Não percebe?

ATRIZ QUE REPRESENTA LEON – Leon tinha quarenta e poucos anos…  

(Começa a peça.)

CANÇONETA DE MARIA ILIEVA

 

Cançoneta de Maria Ilieva

(segunda versão)

 

Sou Maria Ilieva

das ameixas escaldadas,

do xarope fermentado,

na Bulgária dos novos dias.

 

Pode provar meu senhor,

Meu conhaque seca feridas,

Aprendi subindo nos galhos

enquanto caía o regime

da pátria socialista.

 

Se queima mesmo a língua?

Aí está o bom da coisa,

seja espontâneo, querido

numa goela intacta

alguma coisa está errada.

 

Olhe para mim

meu grande turista

enquanto os porcos giram torrados

na feira das velhas insígnias.

Sou Maria Ilieva

Aprendiz dos novos dias.

 

Quentes tragos, grandes cílios,

estudei os gestos das trocas

e já engulo a grande garrafa

do conhaque capitalismo.

 

Seja espontâneo, senhor,

eu não cuspo, tenho brios,

aí está o bom da coisa,

numa goela intacta

alguma coisa está errada.

 

Sou Maria Ilieva

da mucosa calcinada

na Bulgária das mil alegrias.

 

Monan Piririguá (primeira versão)

Piririguá Obyg tinha 130 anos quando o missionário da Companhia de Jesus o procurou no aldeamento de Itanhaém. A pele enrugada do velho tupiniquim sobrava nas costelas e coxas, mas não no rosto descarnado. Portava adornos descoloridos da virtude guerreira antiga. Foi um homem principal, disso sabiam todos, e não só o prestígio, mas o corpo magro e riscado fascinara o jesuíta.

Piririguá Obyg sentiu que lhe tapavam o sol e mal distinguiu o vulto ou discerniu a voz do jovem interessado no resgate de sua alma. Alma índia arcaica, túnica sobre a qual já não se imprime quase nada. Continue lendo “Monan Piririguá (primeira versão)”

GIACOMO SODERINI

UM INTELECTUAL NO EXÍLIO

No desterro de San Casciano, Maquiavel, o proscrito, se acanalhava o dia todo no jogo de baralho. Sobre a mesa na taberna, freqüentada por um açougueiro, um moleiro e dois padeiros, contava os pontos das cartas de efígie perdida. E ao fim da jornada, embriagado após o passeio pelas ruas escuras, imobilizava-se diante da porta de seu quarto de estudos, despia-se da camisa comum e retirava da sacola panos curiais que vestia de modo mais ou menos solene, a fim de penetrar dignamente trajado em sua intimidade, na lembrança dos palácios principais, e ser recebido de modo cortês por si próprio. Na existência de San Casciano, Maquiavel praticava a amizade rude do moleiro, do açougueiro e de dois padeiros, e entrevia, no apagar da vela, formas modernas de adular o novo príncipe. Continue lendo “GIACOMO SODERINI”

Recortes possíveis (I)

 Os irmãos Hawn

Os irmãos Hawn, de Okoboji, Iowa, cresceram no ferro-velho do bairro. Quando tinham dezessete, para fugir da modorra do fim de semana, desenvolveram o hábito de sair à procura do maior turista que cruzasse seu caminho, com a meta de esmurrá-lo. Encervejados, andavam em silêncio ao cruzar um grupo de veranistas. O inimigo deveria ser valente, para justificar a unidade de ação. Continue lendo “Recortes possíveis (I)”