Carta a Mino Carta

(Em maio de 2016, a revista Carta Capital publica um editorial em resposta a um artigo do colunista Mario Sérgio Conti, da Folha de S.Paulo, sobre a peça O Pão e a Pedra, da Companhia do Latão. Os artigos podem ser lidos no site www.companhiadolatao.com.br. Na ocasião, enviei a seguinte carta ao editor de Carta Capital.)

Prezado Mino Carta,

Diante do editorial intitulado “Uma história mal contada”, crítico ao artigo de Mário Sérgio Conti (a respeito do espetáculo O Pão e a Pedra, da Companhia do Latão), é importante desfazer algumas confusões. Continue lendo “Carta a Mino Carta”

O direito ao teatro

Não há muita dúvida de que o teatro é o setor da vida cultural brasileira em que o engajamento na questão das “políticas culturais do Estado” se encontra mais avançado. Setores dos produtores independentes têm acompanhado de perto e tentado influenciar, através de cafezinhos, seminários e páginas nos jornais, a recente discussão sobre o Procultura, uma reforma da Lei Rouanet que pretende fortalecer as verbas diretas do Fundo de Cultura e controlar na medida do possível os diretores de marketing que hoje decidem sobre o patrocínio das artes com recursos de renúncia fiscal. Integrantes do movimento de teatro de grupo, por sua vez, tentam trazer à pauta o Prêmio de Teatro Brasileiro, uma tentativa de viabilizar montagens e processos de pesquisa com recursos geridos diretamente pelo governo. Diante de tal movimentação, alguém poderia imaginar que existe no setor alguma organização e acúmulo teórico, o que não é uma mentira plena quando comparamos o teatro com as outras artes. Entretanto, o avanço relativo não esconde que o quadro atual da reflexão é de uma completa indigência crítica quando se trata de uma verdadeira “política cultural”. Continue lendo “O direito ao teatro”

Por um teatro materialista*

A Companhia do Latão tem debatido internamente algumas questões que dizem respeito à sua utilidade como produtora de representações. Para se opor aos modos hegemônicos da atividade artística numa sociedade orientada pela lógica do capitalismo tardio (cujo corolário é a transformação perene da cultura em mercadoria e da mercadoria em cultura) essa reflexão deve provir de uma ação cultural como prática política. Continue lendo “Por um teatro materialista*”

A uma estudante de jornalismo

Você me pergunta sobre o jornalismo cultural de hoje. De que formas a mercantilização se dá? Ela se dá, como em todo lado, pela estrutura do trabalho e pela naturalização da cultura do capital. Qualquer editor de um grande jornal julga evidente que uma comédia romântica hollywoodiana tem mais importância do que um filme brasileiro de caráter experimental. Continue lendo “A uma estudante de jornalismo”

O negócio da cultura

O debate sobre a extinção da Lei Rouanet tem mobilizado setores importantes da sociedade brasileira. Parte da classe artística, secretários de governo e jornalistas têm assumido o ponto de vista “reformar, sim, acabar, nunca!”.

De fato, a Lei Rouanet tem se mostrado uma força miraculosa em seus 17 anos de vida. Basta dizer que mudou a paisagem da avenida Paulista, em São Paulo, ao fazer surgir uma dezena de centros culturais. Curiosamente, instituições com nomes de bancos, que elogiam o espírito abnegado da instituição financeira. Continue lendo “O negócio da cultura”

A bolsa de valores e o amor (no Fórum Social Mundial)

Num texto irônico de sua juventude, Marx elogia o erotismo e o senso ético da Bolsa de Valores, porque afinal, ele escreve, na “bolsa de valores também é o amor que impera”. A bolsa de valores é um lugar onde cada investidor busca satisfazer o seu desejo de felicidade, o que significa, na prática, o amor. Portanto, se alguém joga na bolsa, diz ele, “e faz isso com correção”, sabendo calcular bem as conseqüências das operações, está agindo moralmente, ao mesmo tempo em que realiza o amor.

Essa ironia literária de Marx – essa piada de que o mercado é um lugar de moralidade e erotismo – serve até hoje como uma espécie de modelo modernista para a representação teatral antiburguesa. No meu trabalho com teatro na Companhia do Latão tenho visto o quanto imagens como essa ainda tem sua graça: imaginem no palco um grupo de corretores se virando para o público e cantando o amor financeiro, como se fossem tenores de uma ópera romântica, e imaginem que esses heróis sejam imitados por um coro de office boys. O efeito pode ser interessante.

Na época, a imagem devia ter ainda maior efeito de choque porque ia contra todos os hábitos da crítica idealista ao mundo burguês. O mais comum, mesmo entre as alas progressistas da esquerda, era criticar a sociedade capitalista não em sua totalidade material, mas apenas do ponto de vista dos excessos individuais: criticava-se a fome do lucro, a ganância, o materialismo. Muito da produção simbólica do século 19, no teatro e na literatura, combateu apenas os vícios morais gerados pelo dinheiro, sem se opor ao conjunto do sistema produtivo. Com isso não foi muito além de condenar a ação capitalista por sua ausência de espiritualidade. De condenar a economia por estragar o reino humanista da cultura. Para um escritor idealista, a bolsa deveria ser criticada como um lugar de desamor.

A atitude modernista de Marx era contrária a qualquer condenação moralizante. Engels mostra, inclusive, que a moralização correspondia ao próprio modo fundamental com que o burguês se enxergava. Era o burguês filisteu, diz Engels, quem criticava os vícios materialistas da gula, da bebedeira, da cobiça, do prazer da carne, da ânsia do lucro, da avareza, e as fraudes da operação da bolsa. Ou seja, todos os vícios impuros aos quais ele próprio rendia um culto secreto. E, do outro lado, esse burguês se mostrava um idealista da fé na virtude, do amor ao próximo, da arte e até mesmo da confiança num mundo melhor. Desses ideais ele se vangloriava na frente dos outros. A burguesia, naquela fase heróica, seria portanto, materialista no íntimo e idealista em público, como dizia a canção favorita do burguês, também citada por Engels: “que é o homem? Metade animal, metade anjo”. Ou como escreveu Goethe no Fausto: duas almas lutam e disputam o seu peito.

Uma fina flor do Imperialismo da época, certamente mais sofisticada do que seus correspondentes atuais, o bebedor de cerveja Otto Von Bismarck, gostava de cantar, segundo Brecht, os seguintes versos: “Teodoro, velho carneiro, não me boline na frente do mundo inteiro.”

Era um outro tempo, aquele em que as perversões econômicas  e imperialistas se ancoravam numa cultura idealista, hoje em dia reduzido ao discurso maniqueísta – e consumista – do bem e do mal. Era um outro tempo em que a própria burguesia se orgulhava de trazer dentro de si o bem e o mal como contradição, na medida em que essa constatação desviava a atenção de sua atuação prática. Naquele tempo, muito do trabalho da representação artística anticapitalista, para quem Marx servia de exemplo, era desmascarar essa combinação.

Ao assumir o ponto de vista considerado ruim para sua crítica, o do materialismo, o exemplo literário de Marx se afasta do gesto moralizante porque condena não a ganância da Bolsa, mas a própria ideologia do amor, na perspectiva de seu vínculo subserviente com as práticas mercantis. Condena o amor como ideologia de classe, não sua possível realidade de encontro humano, que permanece como possível valor concreto.

O que mudou de lá para cá, no que se refere ao tema do amor na bolsa de valores, é que isso já não é uma piada, mas uma grotesca verdade inteira, na época do capitalismo financeirizado, que vem se erotizando, no nível mais banal da palavra, em todos os níveis.

Como está previsto no Manifesto Comunista, com o desenvolvimento da concorrência universal, todos os valores antigos da cultura (que dependiam de uma inscrição territorial numa comunidade estável), toda a religião e a ética antigas foram aos poucos aniquilados. Na medida em que a burguesia se internacionaliza, criando vínculos de consumo no mundo inteiro, dos quais depende para satisfazer sua necessidades, na medida em que a burguesia se livra do passado e cria interesses e dependências mercantis novas, todas as velhas ideologias que não correspondiam à prática mercantil foram esvaziadas. Mesmo aquelas pertencentes ao projeto de universalismo burguês, expressões de um humanismo anti-aristocrático. O mercantilismo deixou de ser negativo e se tornou valor positivo. O destino da mercadoria e o desejo do consumo passaram a ser ideologia acima das outras ideologias. Não era mais preciso que o investidor acreditasse, idealisticamente, que praticava, numa metade de seu coração, o amor. Antigamente, o amor seria o ideal de uma bolsa de valores patética, agora existir na bolsa passa a ser o ideal grotesco do amor.

O crítico Fredric Jameson vem nos últimos anos descrevendo esse processo pelo qual não só as produções da cultura perdem seu sentido comunitário e servem descaradamente ao mercado, mas também pelo qual o próprio mercado se reveste de um valor cultural. Não só a cultura se faz economia, mas a economia se faz cultura. Significativamente, quando Jameson fala de um mundo mercantil que se erotiza, se estetiza, se culturaliza, sua imagem lembra a da Bolsa amorosa de Marx. Para Jameson, o que ocorre hoje é uma libidinização do mercado, uma erotização da economia, uma equivalência entre hedonismo e capitalismo que ajuda a transmitir a impressão de que o dinheiro é a única força de renovação num mundo imobilizado, de que o capitalismo é a única vida possível num mundo sem vida. Para Jameson, “a razão pela qual tantas pessoas pensam que o velho e aborrecido mercado seja algo sexy e inovador resulta de uma enorme variedade de imagens do consumo que douram essa pílula”, e acabaram por impor a própria mercadoria como ideologia suprema.

A questão complicada para a produção cultural é que ninguém pode ignorar esse pressuposto de que o consumismo está vencendo a batalha ideológica, a ponto de determinar muitos dos padrões da sensibilidade contemporânea, eternizando não só a idéia de que o dinheiro é natural mas o gosto por suas formas expressivas. E a simples denúncia desse estado de coisas tem algo de chover no molhado, na medida em que produtos do imaginário capitalista se multiplicam todos os dias, mesmo entre tantos que acreditam procurar práticas alternativas. Infelizmente, os modos culturais da opressão imperialista são mais sutis, menos evidentes, do que os modos econômicos.

A proposição que eu gostaria de fazer a partir disso é que se Marx continua um modelo para a arte anticapitalista – e eu acredito que continua –  é porque suas representações se projetavam na perspectiva real dos movimentos populares. O acirramento das contradições era elemento fundamental tanto para a procura de uma imagem complexa do mundo, como para o desenvolvimento concreto da luta de classes.

Nossa dificuldade é que hoje em dia uma imagem como aquela de Marx – antes absolutamente contraditória – agora já parece mais normal, a ponto de muita gente levá-la a sério, acreditando que o mercado é espaço erótico, mesmo, por excelência, e que o shopping center é o principal lugar vivo e estético da cidade moderna.

Quais seriam, então, as imagens contemporâneas capazes de estabelecer contradições vivas, e assim reativar a sensibilidade, o raciocínio e o gosto de espectadores imersos nos padrões desejantes do capitalismo. Quais seriam as figurações úteis para uma crítica anticapitalista num mundo sem espanto?

Eu acredito que a resposta a isso só é possível em conjunto com a reflexão sobre a destinação da obra: para quem sua utilidade se realizaria?  Nenhuma obra de arte será capaz de ajudar a produzir um imaginário desmercantilizado se em algum nível não estabelecer uma relação crítica com o próprio ato de consumir imagens e representações. Se a mercadoria aliena o valor de uso em favor do valor de troca, a desmercantilização da arte pressupõe sempre uma desalienação de sua utilidade. A ironia de Marx sobre a bolsa de valores amorosa só se realiza ao projetar o ponto de vista dos despossuídos. Seu destinatário na época era um leitor de vanguarda, membro da classe de vanguarda do século 19, o proletariado. A mesma perspectiva revolucionária deu forma à obra de Brecht, que dizia escrever para o espectador da era científica. Hoje como ontem, seria moralismo burguês trabalhar apenas para sacudir um público sem espanto. A obra contraditória de Marx e Brecht foi produzida contra a coisificação dos homens, dialogando com as novas forças sociais que tentavam construir alternativas ao capitalismo.

O que estou querendo sugerir é que sem a procura de uma nova forma de se relacionar com o sistema produtivo, sem oposições aos padrões de consumo, sem a confiança modernista de que a pesquisa formal deve manter relação direta com a procura de uma outra sociedade, será muito difícil romper com a imobilização do imaginário gerada pela cultura do Capitalismo tardio.

Num tempo de falência dos idealismos da burguesia, substituído pelos idealismos supremos do lucro financeiro e do superconsumo, cinicamente estetizados e erotizados, é preciso compreender que nem a representação anticapitalista viva, nem a ruptura com os hábitos da circulação serão fáceis de obter se o trabalho de produção do imaginário se der de modo alienado.

A obra de arte só chegará a se oferecer como mais do que um produto, como um símbolo de um possível processo de desmercantilização, se essa desmercantilização das relações for real no seu processo de geração.

Sendo um microcosmo social, o teatro, para usar um exemplo pessoal, só será realmente anticapitalista se for capaz de modificar a divisão do trabalho entre os artistas, entre estes e os técnicos, entre estes e os funcionários da casa de espetáculos, capaz de banir todo idealismo que ainda julga que o trabalho espiritual é superior ao material, de refutar toda falsa harmonização, todo Erotismo, Moralismo e Esteticismo mistificadores. As imagens praticáveis do mundo são aquelas também praticadas no cotidiano da sala de ensaio.

Alguém poderia objetar diante dessa minha sugestão: isso tudo é muito bonito e pode até ser possível no teatro, uma arte anacrônica, pré-burguesa, feita ainda de modo artesanal (sobretudo nos chamados grupos alternativos), que não tem as mesmas exigências, nem o mesmo alcance da indústria cultural. Uma arte que não depende dos grandes esquemas de circulação, que pode buscar seu público nas ruas, praças, assentamentos do país. Alguém poderia objetar ainda que o teatro pode se dar ao luxo de encenar histórias sem heróis maniqueístas e desejantes, que o teatro pode sonhar com imagens para além das conquistas individuais, pode trabalhar para a ativação da luta de classes – pode, em suma, buscar um olhar histórico –  porque nessa arte os artistas ainda podem ser donos dos meios de produção. E essa pessoa lembraria ainda que isso não é nada fácil para artistas que trabalham em meios como o cinema e a televisão, dependentes de maiores capitais para realizar e  circular suas obras, mais determinados pela especialização técnica.

Eu teria que concordar com essas objeções e seria levado a concluir que de fato uma verdadeira arte de realização humana não é possível dentro dos padrões dominantes no capitalismo. A grande arte sempre sonhou mais do que isso. Então, ao fim das contas, estaríamos falando da necessidade de estar fora do capitalismo. Estaríamos falando da necessidade de um movimento chamado revolução. De um movimento – não um ideal ou um estado – mas um movimento que no passado foi chamado de comunismo.

(Notas para palestra proferida por Sérgio de Carvalho no Forum Social Mundial, em Porto Alegre, no dia 26 de janeiro de 2003, no debate Cultura e Prática Política.)