Latão volta a Recife

(Entrevista com Sérgio de Carvalho, realizada por Márcio Bastos para a revista Continente, novembro de 2016).

A Companhia do Latão esteve na primeira edição do Festival Recife do Teatro Nacional, em 1997. Desde então, o festival passou por muitos altos e baixos, inclusive chegando a ter sua continuidade ameaçada. Gostaria que você comentasse da relação da companhia com o festival e como você avalia a situação dos eventos de artes cênicas no País.

Ter participado das primeiras edições do Festival Recife do Teatro Nacional foi muito importante para a Companhia do Latão. A encenação de “Ensaio para Danton” no Teatro do Parque em 1998 foi uma das versões mais bonitas daquela peça, e mostrou que nosso trabalho, ainda em seu começo, tinha uma linha estética que poderia interessar a muita gente. Continue lendo “Latão volta a Recife”

Noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?)

Dos filmes que me marcaram a adolescência, Noite dos desesperados (1969), de Sidney Pollack, é talvez o de memória mais viva. Assisti na televisão, sozinho, numa madrugada. Numa mais o revi. O filme retrata um concurso de dança de salão em que o último casal a seguir de pé ganha o prêmio, até o limite das forças e da sanidade. Todos bailam como mortos vivos, numa corrida diante de uma plateia que parece mecânica, ao som de músicas ironicamente alegres. São personagens arrebentadas, no tempo da depressão norte-americana. Continue lendo “Noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?)”

O que você está lendo?

Diante da pergunta “o que você está lendo atualmente sobre teatro”, sou forçado à resposta de efeito: nada. Nas últimas semanas tenho me dedicado à leitura de vários escritos das obras completas de Freud sobre psicanálise e à leitura do livrinho A idéia de cultura, do crítico inglês Terry Eagleton. Como ponte simbólica entre os dois autores, iniciei também a leitura dos ensaios reunidos em Cultura e Psicanálise de Herbert Marcuse. Continue lendo “O que você está lendo?”

Uma conversa sobre crítica

DANIELE AVILA – Eu queria te fazer uma pergunta sobre crítica. Acho que o trabalho de vocês pode ser associado aos termos “político” e “pedagógico”, de alguma maneira. E por isso talvez você possa me ajudar a pensar sobre isso: em que medida a crítica pode ou deve ser pedagógica? E o que falta, ou faltaria – eu tenho a impressão de que falta – para a crítica ter uma dimensão política forte?

SÉRGIO DE CARVALHO – Eu tenho uma relação contraditória com a crítica teatral. Eu fui crítico de jornal, de O Estado de São Paulo, por um período curto nos anos 90. Por uns dois anos eu escrevi crítica. Como eu já era dramaturgo, eu evitava espetáculos de São Paulo, escrevi mais sobre montagens de fora. Dou aula ainda hoje na USP na área de crítica. E a Companhia do Latão é um grupo de teatro que tem uma trajetória de briga com críticos. Continue lendo “Uma conversa sobre crítica”

A uma estudante de jornalismo

Você me pergunta sobre o jornalismo cultural de hoje. De que formas a mercantilização se dá? Ela se dá, como em todo lado, pela estrutura do trabalho e pela naturalização da cultura do capital. Qualquer editor de um grande jornal julga evidente que uma comédia romântica hollywoodiana tem mais importância do que um filme brasileiro de caráter experimental. Continue lendo “A uma estudante de jornalismo”

Uma entrevista para o Hemispheric Institute

Marcos Steuernagel – Uma das questões interessantes do trabalho do Latão é essa idéia de usar o Brecht como um modelo, mas tentar construir uma espécie de teoria brasileira do Brecht, de entender como a teoria dele chega no Brasil. Você poderia falar sobre isso?

Sérgio de Carvalho – O mais importante da obra de Brecht não são apenas seus resultados formais e de estilo, mas o quanto eles traduzem um trabalho, que está além da obra. Esse trabalho teatral não acontece dentro do palco. Ele se dá na passagem do palco para a platéia. O importante no modelo brechtiano é uma atitude, que se realiza no trânsito entre artistas e público, e desloca a função convencional da arte. Como a dialética não incide apenas sobre o campo artístico, mas sobre a dimensão extra-estética, ela exige uma reflexão atual sobre o sentido desse trânsito simbólico, sobre as feições contemporâneas da ideologia e sobre a função do teatro. Continue lendo “Uma entrevista para o Hemispheric Institute”

Os vivos somos nós

(Entrevista de Sérgio de Carvalho realizada por Carolina Maria Ruy para revista Princípios número 112, São Paulo, Editora Anita Garibaldi, abril e maio de 2011, pp. 72-79. O espetáculo Ópera dos Vivos re-estréia no Centro Cultural São Paulo no início de agosto de 2011.)

Princípios – A peça retrata bem os anos 1960, 1970, aquele período de ditadura militar, com um olhar atual. Mas também aborda outras questões. Afinal, qual o tema central de Ópera dos Vivos?

Sérgio de Carvalho – Para nós, a peça é sobre o trabalho da cultura na atualidade. Ela usa os anos 1960 como uma referência para pensarmos possibilidades hoje de relação entre arte e política. Ela não se pretende uma história geral do período. O ângulo em que a história surge em cena é o do processo de mercantilização e de alienação, ligado à especialização em que o trabalho artístico se envolve com o desenvolvimento das estruturas produtivas. Como em qualquer outra relação de trabalho, também as da cultura se determinam pela situação material. Continue lendo “Os vivos somos nós”

Ofício do diretor – uma entrevista

Trechos de entrevista de Sérgio de Carvalho. Realizada por André Carreira para o livro Arte y oficio del director teatral en America Latina: Bolivia, Brasil y Ecuador, organizado por Gustavo Geirola, Buenos Ayres: Nueva Generacion, 2010, pp. 91-99.

Como você chegou à direção teatral?

Comecei meu trabalho teatral como dramaturgo. Apesar de algumas experiências anteriores em direção (feitas na universidade, durante a graduação e o mestrado), minha intenção era seguir apenas escrevendo ficção e teoria. Decidi me dedicar ao ofício de encenador quando entendi, através da prática experimental, a possibilidade de juntar os campos. Passei a me dedicar a uma dramaturgia crítica da cena, ligado a um coletivo de artistas, a Companhia do Latão.

Qual foi sua primeira direção e que objetivos você tinha nesse momento?

Minha primeira experiência, muito jovem, como diretor amador, foi na universidade, com a montagem de uma versão reduzida do Hamlet, que narrava a história de trás para frente. Eu estudava a teoria da representação clássica da Melancolia na obra de pesquisadores como Erwin Panofsky e Fritz Saxl e procurava aplicá-la à cena. A intenção era realizar uma cena reflexiva. Essa dimensão teorizante se desenvolveu em meu trabalho com toda força quando tive contato com a obra de Brecht e de Marx. Continue lendo “Ofício do diretor – uma entrevista”