Notas sobre Raymond Williams e o teatro

Raymond Williams, em mais de uma ocasião, afirmou que seu interesse pelo teatro surgiu na leitura das peças de Ibsen, ocorrida após sua experiência como combatente do exército na Segunda Guerra Mundial. Ibsen foi, no fim do século 19, o dramaturgo mais influente entre os artistas que representaram a crise da sociedade burguesa no campo da família. Para Williams, é o autor que toca o limite da “tragédia liberal”. Continue lendo “Notas sobre Raymond Williams e o teatro”

Anatol Rosenfeld fez toda uma geração aprender a pensar

O alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973) ajudou muita gente a pensar por conta própria. Ainda hoje, é o crítico teatral mais importante na formação dos artistas de minha geração em São Paulo. Depoimentos dos que o conheceram dizem que a mesma independência dos seus notáveis escritos marcava a prática do professor: preferia dar aulas em casas de amigos a manter vínculos institucionais que pusessem em risco sua autonomia intelectual.
A distância que mantinha das normatizações filosóficas era semelhante à aversão que tinha em face de qualquer instrumentalização do homem.

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Gogol e a arte histórica

Em Inspetor Geral (Revizor), de Gogol, a sátira se amplia até o grotesco.  Mesmo quando o autor se vê obrigado ao esquema da intriga cômica, o desenvolvimento convencional não atrapalha a vida torta dos tipos. Nos contos e romances, mais livres da tradição formal (sempre autoritária no mundo do teatro), Gogol foi ainda mais genial. Na fantástica narrativa de O retrato, encontro uma síntese de sua visão de arte, atribuída a uma das personagens, um pintor fora do comum: “Era um homem notável sob muitos aspectos. Um artista como poucos. (…) Um nobre instinto fazia-lhe sentir em cada objeto a presença de um pensamento. Descobriu sozinho o sentido exato dessa expressão, ‘a pintura histórica’. Ele intuia a razão pela qual se pode chamar assim a um retrato, a uma simples cabeça de Rafael, de Leonardo, de Ticiano ou Correggio, enquanto que um painel imenso de temática extraída da história pode não passar de um ‘quadro de gênero’, apesar de todas as pretensões do pintor a uma arte histórica.”

Uma cena de kabuki

 Assisti anos atrás a um ensaio de uma companhia japonesa de teatro kabuki, comandada pelo ator Nakamura Kanzaburo XVIII. O nome indica a tradição dinástica, bem como o primeiro dos nomes do grupo se refere ao imperador atual:  Heisei Nakamura-za é este coletivo de jogo cênico variado, entre o melodrama bruto e a farsa coreográfica, que mistura estilos teatrais, da convenção metonímica ao realismo cru, talvez o que mais próximo se encontre hoje da antiga cena elisabetana: organização cultural aristocrática e teatralidade popular. Essas fotos foram feitas por mim, naquele maio de 2008, na Casa das Culturas do Mundo de Berlim. A mulher mutila o própria rosto com um ferro em brasa (evidentemente de madeira, avermelhada no batom). O efeito da carne-viva só não era menos notável do que a capacidade de estilização trágica desse ator especializado em papéis femininos (onnagata). Desconheço seu nome.  

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Tchekhov conta Brasil

Anton Tchekhov, contista e dramaturgo russo morto em 1904, será um dos autores mais encenados neste ano no Brasil. São muitos os motivos que explicam o fenômeno. De um modo geral, Tchekhov fazia no teatro o mesmo que em sua literatura. Era um maravilhoso retratista não dos conflitos interpessoais e dos desenlaces necessários, mas da crise da ação na vida, principalmente quando vivida em situação de intervalo como naquela Rússia mal saída do arcaísmo feudal e já acossada pelos cambiantes desejos da sociedade moderna. Continue lendo “Tchekhov conta Brasil”

Uma práxis da imaginação (Tchekhov)

Os anos de aprendizagem do Teatro de Arte de Moscou devem muito de seu brilho ao trabalho de Anton Tchekhov. A morte do escritor, em 1904, fecha o primeiro ciclo de formação da mais importante companhia russa de teatro moderno, surgida em 1898 do encontro de dois homens, o ator Konstantin Stanislávski e o dramaturgo Nemiróvitch-Dántchenko.

Tchekhov, como mostra a coletânea “O Cotidiano de uma Lenda: Cartas do Teatro de Arte de Moscou”, aproximou as perspectivas contraditórias dos diretores da companhia. Continue lendo “Uma práxis da imaginação (Tchekhov)”

Encontro com Lauro César Muniz

Encontro de trabalho (nos dias 16 e 17 de agosto) com Lauro César Muniz, na Companhia do Latão. Ele nos explica seus anos de aprendizagem com Augusto Boal, entre 1961 e 1962, quando tomou contato com o método de escrita que o Arena desenvolveu antes do golpe militar. Boal estruturou, a partir de seus estudos sobre drama nos Estados Unidos, e das experiências anteriores de cursos laboratoriais do Arena e Seminário de Dramaturgia, um método pedagógico, baseado na dialética hegeliana de explicação da técnica dramática. Lauro César expôs o princípio em dois encontros com nosso grupo. Participaram alguns convidados:  artistas que em outras circunstâncias nos procuraram para estudar dramaturgia. Continue lendo “Encontro com Lauro César Muniz”

A superação do drama (Teoria do Drama Moderno, de Peter Szondi)

Poucos livros são tão imprescindíveis para os estudos teatrais como “Teoria do Drama Moderno”, publicado em 1956, mesmo ano da morte de Bertolt Brecht. Seu critério de compreensão do modernismo é radical. Por isso tão mobilizador. Segundo Peter Szondi, a dramaturgia moderna não foi só aquela que encenou novos assuntos, num quadro de crise da ordem burguesa, dando relevo a questões como a incomunicabilidade ou as lutas sociais. Foi sobretudo a que procurou converter esses assuntos em novas formas. Moderna foi a dramaturgia que realizou a crítica das formas anteriores, numa busca de superação histórica do padrão “dramático”. Para usar o nome certo, moderna foi a dramaturgia que se voltou para a pesquisa épica. Continue lendo “A superação do drama (Teoria do Drama Moderno, de Peter Szondi)”

Penúltima peça de Ibsen estreou há cem anos

Olhando o cartaz dessa primeira apresentação parisiense de John Gabriel Borkman, vemos em primeiro plano o rosto de um homem velho de suíças, como que pairando no ar. À direita de Ibsen, em menor escala, um farol de navegação emite raios em várias direções. A imagem hiperbólica de um dramaturgo-farol ganha maior relevo se conferirmos os outros nomes da propaganda: o desenho é assinado por Edvard Münch e anunciava a temporada de 1897-1898 de um teatro experimental inaugurado quatro anos antes, o L´Ouvre, que passaria à história da cena moderna pelas incursões simbolistas de seu diretor e principal ator, Aurélien Lugné-Poe e, pelo estrondo iconoclasta da montagem de Ubu Roi de Jarry apresentada no ano anterior. Àquela altura Ibsen já era considerado o maior dramaturgo do século 19. Sua fama, construída aos poucos – ao longo de 40 anos e mais de 20 peças -, não dispensou debates críticos acirrados.  Sua enorme popularidade, entretanto, se deveu menos à sofisticação dramatúrgica do que ao escândalo causado por alguns de seus temas, como o feminismo de Casa de Bonecas, ou a sífilis hereditária dos Espectros.  Pode-se dizer que Ibsen se tornou um autor conhecido em todo o mundo (como aliás quase sempre acontece) não por seu imenso valor artístico mas por repercussões acidentais.  Continue lendo “Penúltima peça de Ibsen estreou há cem anos”

Notas sobre dramaturgia modernista e desumanização

“Agir dá mais felicidade do que desfrutar.

Os animais também desfrutam.”

(O novo Menoza, Jacob Lenz)

A representação de processos de desumanização foi questão fundamental para algumas das mais importantes realizações do teatro moderno, tornando-se uma espécie de projeto central para os artistas que, na primeira metade do Século XX, pensaram as relações entre forma dramatúrgica e sociedade contemporânea. Continue lendo “Notas sobre dramaturgia modernista e desumanização”