Escritos de trabalho de Sérgio de Carvalho

Por um teatro materialista*

A Companhia do Latão tem debatido internamente algumas questões que dizem respeito à sua utilidade como produtora de representações. Para se opor aos modos hegemônicos da atividade artística numa sociedade orientada pela lógica do capitalismo tardio (cujo corolário é a transformação perene da cultura em mercadoria e da mercadoria em cultura) essa reflexão deve provir de uma ação cultural como prática política. Procuramos resumir os temas debatidos nos itens expostos a seguir:
O que dá sentido político ao teatro é a forma como se organizam suas relações de produção
É na sala de ensaios que tem início o processo de politização do Teatro. O modo como se organizam as relações de trabalho entre os integrantes do grupo determina o caráter político da encenação. O esforço para que seja superada a divisão entre trabalho material e trabalho espiritual na construção da cena deve se estender, numa segunda fase, à relação com o público. A politização do ensaio contagia a forma do espetáculo e abre uma nova perspectiva de recepção crítica. A forma processual da obra – decorrente da atitude coletivizante do trabalho – suprime as hierarquias entre os artistas no palco, desmistifica a imagem artística, e busca tornar companheiros de jornada simbólica os homens do palco e os da platéia.

O que determina o valor da produção artística é seu valor de uso
Submetida aos padrões do mundo da mercadoria, a produção artística é levada a alienar sua utilidade em favor da pura circulação. Como uma sandália que não se destina mais ao pé, mas feita para ser vendida, o artista passa a trabalhar para ser reconhecido como artista, gasta sua energia produtiva e econômica para aparecer nos jornais, para ser valorizado como mercadoria da cultura. Torna estética não sua obra, mas sua condição de mercadoria. Afasta-se dos conteúdos da arte e estetiza, em abstrato, seu modo de ser. Comporta-se como as mercadorias, cuja aura construída pouco provém do conteúdo do produto e muito das emoções genéricas que lhe são atribuídas. O artista, assim constrangido, persegue toscas imagens da celebridade enquanto lamenta idealisticamente a corrupção dos valores artísticos. A crítica ao império da circulação é, contudo, insuficiente. Pode levar à defesa da arte absoluta, de que a obra encontra seu fim no seu sentido puramente estético. Para nós, não se deve ter medo do debate sobre a função da arte. Consideramos legítimas quaisquer utilizações pedagógicas, assistenciais e humanitárias da arte, ainda que nossa pesquisa seja de ordem estética. Estética naquele limiar em que a estética deixa de ser estética: nosso interesse artístico é a reativação da luta de classes.

É necessária a invenção de alternativas de circulação
A lógica da circulação impregna e confunde os produtores da arte. Inocula nos organismos da cultura doenças como o marquetismo, o personalismo, o agradismo hedonista. A crítica à mercantilização da arte é inoperante se o trabalho artístico continua preso aos ditames de uma imprensa cujo critério de verdade provém das pesquisas de mercado. De outro lado, a produção que conta com o apoio estatal não está preservada da influência mercantil quando apenas – no desejo de corresponder ao sentido público de sua missão – confere aparência “social” aos seus produtos, sem alterar conteúdos e práticas teatrais. Os produtos da cultura devem servir a processos coletivos, e não o contrário. Por isso, novos modos precisam ser inventados: associações de espectadores, contatos com movimentos sociais, intercâmbios entre grupos. Cabe também aos artistas a organização de novos sistemas de circulação de suas obras. Não basta a interlocução isolada entre produtores culturais, à margem da sociedade. É preciso produzir formas capazes de incluir a sociedade como um todo numa perspectiva revolucionária.

Anticapitalismo, pesquisa estética e revolução
A pesquisa estética terá sensibilidade revolucionária quando desenvolvida por produtores empenhados em um projeto coletivo anticapitalista.

(*Escrito em parceria com Márcio Marciano, publicado originalmente no jornal O Sarrafo, número 1, março de 2003, p. 11.)

2 Respostas sobre “Por um teatro materialista*”

  1. Jorge Feliciano disse:

    Viva Sérgio,
    muito bom este texto e de facto programático. Todas as questões levantadas são muito pertinentes e as respostas a elas também. No entanto, mesmo entendendo o carácter de manifesto curto desse texto, como uma boa ferramenta pronta a usar, encontro nele duas insuficiências, ou melhor, um erro e uma insuficiência.

    O erro, quanto a mim, e abordando a questão obviamente de um ponto de vista marxista, tem a ver com a frase “nosso interesse artístico é a reativação da luta de classes.”

    Não é possível a luta de classes ser reactivada. Ela sempre permanece activa, pelo menos na história até aos nossos dias. Pode ser mais visível ou menos visível. Pode-se expressar de uma forma mais ou menos organizada, mais ou menos clara em relação aos objectivos de cada uma das classes em luta.

    Mesmo admitindo que os oprimidos se escusassem de lutar (uma improbabilidade histórica) essa luta estaria lá porque ela é uma guerra declarada em primeira mão pelo seu inimigo opressor assim que ele inicia a exploração da força de trabalho alheia.

    Daí que colocar reactivação da luta de classes como interesse artístico pode gerar mal-entendidos, inclusive sobre o papel dos intelectuais nessa luta, isto partindo do princípio que concordamos que é da classe operária o papel determinante dessa luta apesar da importância também histórica da aliança entre a classe operária e outros grupos ou camadas sociais, como o são os intelectuais.

    Dessa forma, penso que o objectivo artístico de um grupo marxista de teatro passe antes pela tomada de uma posição clara na luta de classes, que revitalize e fortaleça a aliança entre os intelectuais cada vez mais proletarizados e a classe operária ela mesma contra os seus inimigos comuns de classe.

    A insuficiência tem a ver com o último parágrafo: “Anticapitalismo, pesquisa estética e revolução. A pesquisa estética terá sensibilidade revolucionária quando desenvolvida por produtores empenhados em um projeto coletivo anticapitalista.”

    São também cada vez mais os intelectuais que se afirmam como anticapitalistas. Mas dentro do anticapitalismo cabe toda a espécie de grupos religiosos e outros.

    É um chavão que até atrai a extrema direita mais vil (como se pôde ver no entretanto esgotado movimento anti-globalização – um chavão também ele insuficiente, mil vezes aquém do anti-imperialismo). Por essa europa fora no primeiro de maio são inúmeros os grupos de neo-fascistas que saem à rua com slogans como “contra o capitalismo”. Para eles esta frase serve bem os seus objectivos, porque assim dissociam o capitalismo do fascismo, quando o último é a forma extrema do primeiro.

    Mas não pense que eu estou te chamando nomes feios! Estou só tentando demonstrar a dimensão do problema que têm a ver com a tal insuficiência do “ser anticapitalista”.

    Como se costuma dizer há diferenças entre ser-se revoltado e ser-se revolucionário. O “ser anticapitalista” serve, na melhor das hipóteses, a um revoltado bem intencionado. Para um revolucionário, “ser anticapitalista” implica por consequência a clara indicação da alternativa. E essa alternativa é o socialismo.

    • Sérgio de Carvalho disse:

      Caro Jorge,

      Concordo com todas as suas observações. O texto foi escrito originalmente para um jornal dos grupos de teatro de São Paulo, o Sarrafo. Daí a frase sobre a “reativação” da luta de classe. Ela se refere, na verdade, a uma sugestão artística (representacional) para os grupos que participavam do projeto. Não se pretendia uma sentença geral, como parece hoje, sem a especificação de contexto. Já a proposta da atitude anticapitalista, naquela situação, era um avanço em relação à tendência no máximo antiburguesa (e culturalista) de muitos coletivos. Mas de fato, é preciso distinguir. E orientar o trabalho teatral para perspectivas críticas e práticas cujos nomes ainda são socialismo e comunismo.

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