Noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?)

Dos filmes que me marcaram a adolescência, Noite dos desesperados (1969), de Sidney Pollack, é talvez o de memória mais viva. Assisti na televisão, sozinho, numa madrugada. Numa mais o revi. O filme retrata um concurso de dança de salão em que o último casal a seguir de pé ganha o prêmio, até o limite das forças e da sanidade. Todos bailam como mortos vivos, numa corrida diante de uma plateia que parece mecânica, ao som de músicas ironicamente alegres. São personagens arrebentadas, no tempo da depressão norte-americana. Lembro da beleza absurda de Jane Fonda, que vai se dissolvendo até reaparecer plena antes da última cena, brutal, violentíssima, em que seu parceiro a ajuda a estourar os miolos. Tudo era para mim perturbador: a falta de saída, o drama impossível, a injustiça, as imagens do espetáculo grotesco, a cena a um tempo realista e alegórica, o interesse pelos desclassificados do sonho americano. Passei a perseguir essas questões nos filmes que via na madrugada, enquanto em casa, meus pais, minha irmã, dormiam. Mais tarde, quando pude frequentar cineclubes e ver meus primeiros filmes de autor, nenhuma experimentação formal (o que eu também adorava) seria legítima se não tivesse também o interesse pela “vida que se desmancha” demonstrado por um filme como Noite dos Desesperados.

(Depoimento dado a revista Cult, número 183, seção “Meu filme de formação”.)

 

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