Avoantes

No Assentamento Santana, onde mora Alana, Seu José, brincante do Boi, é a mim apresentado por Silma. Percebe que me interesso pelo que ele faz, e me narra uma cena. “Nunca viu?” Ele representa cada um dos personagens, canta trechos, cria  o espaço, as oposições, os tipos. Consigo ver cada detalhe. “Aqui é preciso uns vinte versos”. Fico especialmente tocado por uma canção, diz ele, “do tempo de Jesus Cristo”. Quero gravar, mas qualquer registro seria perturbado pelo ruído das caixas de som que alguém testa no bar perto de nós. De repente, cai a luz. Um black out em Santana. Algum burburinho, nenhuma amplificação, estrelas, um farol de carro ao longe. Ligo a câmera, que me permite, no pouco tempo que durou o escuro, aprender o trecho lindo, cantado de modo cuidadoso e divertido (volto lá para  aprender o resto e o jeito):

“Eu cheguei em vossa casa,

– menino vá ver quem é,

– é os três reis do Oriente,

que a sua esmola quer,

E abre a porta meu amo que tem que abrir

– que a noite é tão bela

nós queremos ir

– e nós mora longe,

queremos dormir”.

(As vozes oscilam: entre o dono da casa e os reis mendigos, um menino, entre classes e mundos – é o próprio cantador, mediador dos ritmos do diálogo.)

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