Latão volta a Recife

(Entrevista com Sérgio de Carvalho, realizada por Márcio Bastos para a revista Continente, novembro de 2016).

A Companhia do Latão esteve na primeira edição do Festival Recife do Teatro Nacional, em 1997. Desde então, o festival passou por muitos altos e baixos, inclusive chegando a ter sua continuidade ameaçada. Gostaria que você comentasse da relação da companhia com o festival e como você avalia a situação dos eventos de artes cênicas no País.

Ter participado das primeiras edições do Festival Recife do Teatro Nacional foi muito importante para a Companhia do Latão. A encenação de “Ensaio para Danton” no Teatro do Parque em 1998 foi uma das versões mais bonitas daquela peça, e mostrou que nosso trabalho, ainda em seu começo, tinha uma linha estética que poderia interessar a muita gente. Tanto que a mais importante de nossas peças dos primeiros anos, “O Nome do Sujeito”, se passava em Recife, contando histórias de violência em torno de um barão do império que teria feito um pacto com o diabo: era uma alegoria da modernização regressiva, uma espécie de pré-história do que se vê em alguns dos filmes de nosso melhor cineasta atual, o Kléber Mendonça. De lá para cá houve um crescimento da quantidade de festivais de teatro no país, e isso atingiu um auge na metade da primeira década do século. Agora estamos num momento de refluxo, de notável piora da qualidade média, na medida em que, nos últimos anos, poucos desses festivais contribuíram para a melhora conjunta do teatro no país, para intercâmbios de processos culturais, para a formação de artistas e plateias, porque preferiram funcionar como feiras de produtos culturais, auto-referentes e voltadas à própria manutenção. Daí a importância da retomada de festivais em que a dimensão formativa volta a primeiro plano.

“O Pão e a Pedra”, além de tratar de um contexto político mais geral, também toca na questão da desigualdade entre os gêneros. Gostaria que você comentasse o processo criativo do grupo e, mais especificamente, os caminhos de desenvolvimento do espetáculo.

 O Pão e a Pedra se tornou um espetáculo incomum, especialmente por estar sintonizado com o espírito do tempo, por não ter medo de se posicionar politicamente nem de expor as contradições em relação à recente história do movimento dos trabalhadores no país. É uma peça sobre uma das três grandes greves do ABC, mas ela trata antes das dificuldades da mobilização coletiva, sem nenhuma positivação fácil. Ela mostra mulheres e homens que desejavam uma vida melhor e decidiram enfrentar as pressões da própria condição: de classe, de gênero, de situação religiosa e cultural. Nós tentamos, como fazemos sempre, criar imagens, canções e uma dramaturgia que diga respeito não só a nosso tema dos anos 1970, mas a nós mesmos, à nossas próprias dificuldades hoje. Ensaiamos nos primeiros meses do ano, e vez ou outra íamos às ruas para participar de atos políticos contra esse golpe canhestro que segue em curso. Tudo isso se refletiu no nosso trabalho, que acabou por se tornar uma das montagens mais comoventes do Latão.

O trabalho da Companhia é estritamente ligado à conscientização social. “O Pão e a Pedra” retrata a mobilização de trabalhadores do ABC Paulista durante a greve de 1979. Foi um momento emblemático, principalmente com o fortalecimento de Lula enquanto força política. Como você observa a relação entre o momento político atravessado pelo País e o reflexo (atual ou futuro) dos fatos recentes, como a deposição da presidente democraticamente eleita, nas artes e, mais especificamente, na arte de vocês?

A ideia de “conscientização social” só não é exata porque em arte, como você sabe, muitas vezes são as formas, as atitudes e o modo com que a cena se relaciona com o público que produzem um sentido (e mesmo sentidos) às vezes mais forte do que o assunto evidente. É claro que um tema como a greve de 1979, em que o Lula surge como a principal liderança dos trabalhadores do país, é eloquente demais para se tornar secundário. Apesar dele nem aparecer em cena. Mas a peça é toda contraditória, viva, múltipla: assume o ponto de vista das operárias, operários, estudantes e religiosos, não dos dirigentes. Ela discute a própria dificuldade dessa representação que é ao mesmo tempo política e teatral. Seu centro narrativo é o momento em que há uma intervenção federal da ditadura e os líderes do sindicato dos metalúrgicos são afastados de sua função, o que obriga os trabalhadores a discutirem e experimentarem novas formas de ação coletiva, o que exige imaginação livre e solidariedade inédita. É claro que alguns dos paradoxos e impasses daquele momento soam como prenúncios trágicos do momento atual. Mas o público não terá dúvida de que a peça está ao lado dos que lutaram pelo direito de não passarem a vida sendo funcionários do capital. Nesse sentido, é também uma homenagem aos que resistem à violência tecnocrática de hoje, que vem com tanta estupidez para consagrar o fato de que a conta da crise seguirá sendo paga pelos mais pobres.

 

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