Carta a Mino Carta

(Em maio de 2016, a revista Carta Capital publica um editorial em resposta a um artigo do colunista Mario Sérgio Conti, da Folha de S.Paulo, sobre a peça O Pão e a Pedra, da Companhia do Latão. Os artigos podem ser lidos no site www.companhiadolatao.com.br. Na ocasião, enviei a seguinte carta ao editor de Carta Capital.)

Prezado Mino Carta,

Diante do editorial intitulado “Uma história mal contada”, crítico ao artigo de Mário Sérgio Conti (a respeito do espetáculo O Pão e a Pedra, da Companhia do Latão), é importante desfazer algumas confusões.

Sua observações ao texto do articulista da Folha de São Paulo podem ser compreendidas se atribuirmos à parte aspectos do todo. As posições editoriais do veículo de comunicação em que ele escreve tendem, ao longo das décadas, à desqualificação das demandas dos trabalhadores.

Não é tal posição, porém, a que aparece nesse texto específico de Mário Sérgio Conti sobre nosso espetáculo, o que faz imaginar que a irritação de Carta Capital com o artigo se dê por questões que escapem ao leitor. Mas o que importa dizer aqui é que seu comentário acaba por lançar dúvidas sobre nosso espetáculo.

A partir de um episódio discutido no teatro, o da perda de contato por dois dias entre Lula, então presidente do Sindicato de São Bernardo, e os grevistas, em 1979, Conti escreveu: “Reapareceu (Lula) para, contra o ímpeto dos grevistas, fazer com que voltassem às fábricas e engolissem um acordo danoso.”

Você refuta a citação dizendo que “Lula negociou com os patrões com o apoio de seus comandados, situações que impõem concessões recíprocas em busca do acordo. E que não consta que tenha sido danoso, nem que a popularidade arrefeceu.”

Nossa peça, efetivamente, dá razão a você, ainda que mostre também o descontentamento de algumas personagens com a votação pela trégua de 45 dias que decidiu pelo retorno ao trabalho após os 15 dias de mobilização popular nas ruas, com piquetes e assembleias que chegaram a reunir 70 mil pessoas no estádio da Vila Euclides. Esse episódio, contudo, foi uma etapa anterior ao acordo final, que só ocorreu mais tarde, quando o sindicato ainda estava sob intervenção federal. Foram as lições daquele ano que prepararam a greve mais vitoriosa de 1980. Nosso tema central não é, em O Pão e a Pedra, o comportamento das lideranças, que são apenas citadas, não figuradas. É antes o aprendizado de diversos trabalhadores, estudantes e padres, operado pelas dificuldades de um processo de luta desigual. A demanda salarial se converte em participação política, consciência crítica, imaginação coletiva ao enfrentar a violência policial de um governo militar que se pôs ao lado das multinacionais, da Fiesp e da opinião da imprensa patronal.

O movimento dos metalúrgicos do ABC trouxe novas coordenadas para as organizações trabalhistas e políticas no país, aprofundando a desagregação da ditadura e gerando uma desobediência civil inédita, em escala nacional, naquele momento de fim de ciclo dos militares. Em nossa pesquisa para a dramaturgia realizamos entrevistas com operários, artistas e intelectuais que estiveram lá. Consultamos grande bibliografia e filmografia que está listada no programa da peça, com interpretações que divergem sobre esse grande acontecimento da luta de classes no país. Procuramos apresentá-lo através de personagens ficcionais, com a admiração, o respeito e a compreensão livre das obras de arte que procuram dialogar com a história.

Meu único lamento diante de seu protesto é que o tenha escrito sem assistir ao espetáculo. Isso evitaria a inadvertida suspeita lançada sobre nós. Poderia devolver seu elogio incerto dizendo que a revista Carta Capital tem “fama de competente e engajada, no melhor sentido do termo”. Mas não o faço porque não posso apenas supor: sei, por minha própria conta, do papel importantíssimo que a revista representa. Algo mais do que competência e engajamento.

Aproveito para agradecer a ótima cobertura de nossa estreia, feita pelo artigo de Álvaro Machado, sugerindo que se amplie o espaço de uma cultura política em sua publicação, pois os tempos o pedem.

Abraço de um leitor animado,

que o acompanha há muito tempo,

Sérgio de Carvalho.

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