Noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?)

Dos filmes que me marcaram a adolescência, Noite dos desesperados (1969), de Sidney Pollack, é talvez o de memória mais viva. Assisti na televisão, sozinho, numa madrugada. Numa mais o revi. O filme retrata um concurso de dança de salão em que o último casal a seguir de pé ganha o prêmio, até o limite das forças e da sanidade. Todos bailam como mortos vivos, numa corrida diante de uma plateia que parece mecânica, ao som de músicas ironicamente alegres. São personagens arrebentadas, no tempo da depressão norte-americana. Continue lendo “Noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?)”

Aprendizado da atuação no processo P

Hoje, quando tem início a temporada de O Patrão Cordial em São Paulo, registro alguns pontos importantes para o trabalho dos atores na Companhia do Latão.

“A máscara é o que dá sentido e tira”, ouvi a frase fulminante numa entrevista dada pelo mestre de reisado Manuel Torrado, que vive no interior do Ceará. Um ator interessado em dialética (e no teatro como interesse pela vida) pode se aproximar dessa compreensão se praticar algumas negações que visam a superações. Continue lendo “Aprendizado da atuação no processo P”

Brecht e a dialética (trecho)

A compreensão do indivíduo como fenômeno social, nos termos do teatro como “imagem praticável”,  está também no centro da melhor teoria escrita por Brecht naqueles anos do exílio.

Como se sabe, ele imaginou realizar uma grande síntese de sua visão teatral num projeto chamado A Compra do Latão, que permaneceu incompleto e fragmentado. Mais do que escrever sobre a dialética do teatro, ele procurou uma forma literária dessa dialética. Continue lendo “Brecht e a dialética (trecho)”

Anatol Rosenfeld fez toda uma geração aprender a pensar

O alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973) ajudou muita gente a pensar por conta própria. Ainda hoje, é o crítico teatral mais importante na formação dos artistas de minha geração em São Paulo. Depoimentos dos que o conheceram dizem que a mesma independência dos seus notáveis escritos marcava a prática do professor: preferia dar aulas em casas de amigos a manter vínculos institucionais que pusessem em risco sua autonomia intelectual.
A distância que mantinha das normatizações filosóficas era semelhante à aversão que tinha em face de qualquer instrumentalização do homem.

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O direito ao teatro

Não há muita dúvida de que o teatro é o setor da vida cultural brasileira em que o engajamento na questão das “políticas culturais do Estado” se encontra mais avançado. Setores dos produtores independentes têm acompanhado de perto e tentado influenciar, através de cafezinhos, seminários e páginas nos jornais, a recente discussão sobre o Procultura, uma reforma da Lei Rouanet que pretende fortalecer as verbas diretas do Fundo de Cultura e controlar na medida do possível os diretores de marketing que hoje decidem sobre o patrocínio das artes com recursos de renúncia fiscal. Integrantes do movimento de teatro de grupo, por sua vez, tentam trazer à pauta o Prêmio de Teatro Brasileiro, uma tentativa de viabilizar montagens e processos de pesquisa com recursos geridos diretamente pelo governo. Diante de tal movimentação, alguém poderia imaginar que existe no setor alguma organização e acúmulo teórico, o que não é uma mentira plena quando comparamos o teatro com as outras artes. Entretanto, o avanço relativo não esconde que o quadro atual da reflexão é de uma completa indigência crítica quando se trata de uma verdadeira “política cultural”. Continue lendo “O direito ao teatro”

Notinha sobre Bob Wilson e Brecht

A montagem da Ópera de Três Vinténs de Brecht, dirigida por Bob Wilson para o Berliner Ensemble passa pelo Brasil. Assisti há alguns anos em Berlim. Uma jornalista me pede opinião, respondo o seguinte:

Quando Bob Wilson surgiu como encenador nos anos 70, Heiner Muller viu ali uma afinidade radical com Brecht: um encenador que desmontava a expectativa convencional – e ideológica – do público, rompendo o espaço-tempo da cena e combinando fragmentos de fantasia e de paisagem histórica. O Bob Wilson de hoje depurou a própria pesquisa formal a ponto de domesticá-la. Essa Ópera de Três Vinténs reduz o texto de Brecht a esquemas abstratos de neon, despolitiza o material crítico, dissolve o caráter de classe da representação (que na peça original é a questão central), desproblematiza a posição do espectador. É uma encenação bonita e conformista, como é o Berliner atual.

O que você está lendo?

Diante da pergunta “o que você está lendo atualmente sobre teatro”, sou forçado à resposta de efeito: nada. Nas últimas semanas tenho me dedicado à leitura de vários escritos das obras completas de Freud sobre psicanálise e à leitura do livrinho A idéia de cultura, do crítico inglês Terry Eagleton. Como ponte simbólica entre os dois autores, iniciei também a leitura dos ensaios reunidos em Cultura e Psicanálise de Herbert Marcuse. Continue lendo “O que você está lendo?”

Abertura do processo P (O patrão cordial)

O novo trabalho da Companhia do Latão é um estudo em processo. O Puntila de Brecht é utilizado como material de reflexão sobre a cordialidade brasileira, sobre a “ética de fundo emotivo” a serviço da mobilidade do capital na periferia. A força do exercício teatral depende totalmente do trabalho dos atores. É este o maior desafio da encenação: a concretização de um tempo vivo, que aluda à dificuldade de sua realização geral.