Brecht e a dialética (trecho)

A compreensão do indivíduo como fenômeno social, nos termos do teatro como “imagem praticável”,  está também no centro da melhor teoria escrita por Brecht naqueles anos do exílio.

Como se sabe, ele imaginou realizar uma grande síntese de sua visão teatral num projeto chamado A Compra do Latão, que permaneceu incompleto e fragmentado. Mais do que escrever sobre a dialética do teatro, ele procurou uma forma literária dessa dialética. Continue lendo “Brecht e a dialética (trecho)”

Anatol Rosenfeld fez toda uma geração aprender a pensar

O alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973) ajudou muita gente a pensar por conta própria. Ainda hoje, é o crítico teatral mais importante na formação dos artistas de minha geração em São Paulo. Depoimentos dos que o conheceram dizem que a mesma independência dos seus notáveis escritos marcava a prática do professor: preferia dar aulas em casas de amigos a manter vínculos institucionais que pusessem em risco sua autonomia intelectual.
A distância que mantinha das normatizações filosóficas era semelhante à aversão que tinha em face de qualquer instrumentalização do homem.

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O direito ao teatro

Não há muita dúvida de que o teatro é o setor da vida cultural brasileira em que o engajamento na questão das “políticas culturais do Estado” se encontra mais avançado. Setores dos produtores independentes têm acompanhado de perto e tentado influenciar, através de cafezinhos, seminários e páginas nos jornais, a recente discussão sobre o Procultura, uma reforma da Lei Rouanet que pretende fortalecer as verbas diretas do Fundo de Cultura e controlar na medida do possível os diretores de marketing que hoje decidem sobre o patrocínio das artes com recursos de renúncia fiscal. Integrantes do movimento de teatro de grupo, por sua vez, tentam trazer à pauta o Prêmio de Teatro Brasileiro, uma tentativa de viabilizar montagens e processos de pesquisa com recursos geridos diretamente pelo governo. Diante de tal movimentação, alguém poderia imaginar que existe no setor alguma organização e acúmulo teórico, o que não é uma mentira plena quando comparamos o teatro com as outras artes. Entretanto, o avanço relativo não esconde que o quadro atual da reflexão é de uma completa indigência crítica quando se trata de uma verdadeira “política cultural”. Continue lendo “O direito ao teatro”

Notinha sobre Bob Wilson e Brecht

A montagem da Ópera de Três Vinténs de Brecht, dirigida por Bob Wilson para o Berliner Ensemble passa pelo Brasil. Assisti há alguns anos em Berlim. Uma jornalista me pede opinião, respondo o seguinte:

Quando Bob Wilson surgiu como encenador nos anos 70, Heiner Muller viu ali uma afinidade radical com Brecht: um encenador que desmontava a expectativa convencional – e ideológica – do público, rompendo o espaço-tempo da cena e combinando fragmentos de fantasia e de paisagem histórica. O Bob Wilson de hoje depurou a própria pesquisa formal a ponto de domesticá-la. Essa Ópera de Três Vinténs reduz o texto de Brecht a esquemas abstratos de neon, despolitiza o material crítico, dissolve o caráter de classe da representação (que na peça original é a questão central), desproblematiza a posição do espectador. É uma encenação bonita e conformista, como é o Berliner atual.

O que você está lendo?

Diante da pergunta “o que você está lendo atualmente sobre teatro”, sou forçado à resposta de efeito: nada. Nas últimas semanas tenho me dedicado à leitura de vários escritos das obras completas de Freud sobre psicanálise e à leitura do livrinho A idéia de cultura, do crítico inglês Terry Eagleton. Como ponte simbólica entre os dois autores, iniciei também a leitura dos ensaios reunidos em Cultura e Psicanálise de Herbert Marcuse. Continue lendo “O que você está lendo?”

Abertura do processo P (O patrão cordial)

O novo trabalho da Companhia do Latão é um estudo em processo. O Puntila de Brecht é utilizado como material de reflexão sobre a cordialidade brasileira, sobre a “ética de fundo emotivo” a serviço da mobilidade do capital na periferia. A força do exercício teatral depende totalmente do trabalho dos atores. É este o maior desafio da encenação: a concretização de um tempo vivo, que aluda à dificuldade de sua realização geral.

A metafísica do “contemporâneo” em arte

Há mais de 30 anos, parte do teatro considerado experimental reproduz diversos padrões formais, numa espécie de cartilha gasta de recursos cênicos. Como justificativas ou legitimações desses estilemas, foram construídas diversas supostas teorias, quase todas elas amparadas na recusa pós-estruturalista à racionalidade. As teorias, na verdade arrazoados poéticos, variam nos termos chave (“paisagem de sonho”, “dinâmica volitiva”, “não-duplicação”, “anti-mimético”, “performatividade”) conforme o autor que fundamenta a condenação das “grandes narrativas”.  Mas têm um fundo comum: o culto idealista à chamada PRESENÇA, entidade abstrata que palpita no seio de outra sentença feita – a necessidade de uma “arte contemporânea”. Continue lendo “A metafísica do “contemporâneo” em arte”

Latão no Teatro de Arena

Voltamos a ocupar o Teatro de Arena, 15 anos depois. Foi aqui o início do Latão como projeto de aprendizado, depois das intuições de Ensaio para Danton. Reencontro o jornaleiro da avenida em frente: o rosto mudou pouco, mas traz os cabelos mais escuros. O funcionário que cuidava da infra-estrutura e pintura no passado, o Chico, segue na mesma tarefa. Conta-me  comovido que seus filhos estão na faculdade. Sinto uma alegria de voltar ao palquinho de quatro por seis, agora ensaiando com 9 atores em ação simultânea e tendo que modificar traçados de Ópera dos Vivos. A peça ganha novo sentido neste lugar onde eu recebia de Fernando Peixoto sugestões de leitura sobre Brecht, onde vi Zé Renato partir, onde fomos obrigados, na primeira grande faxina da sala, a desmistificar o trabalho do artista. No sobrepiso atual, duas placas recordam os nomes de Reinaldo Maia e Augusto Boal. O que nos move pelo teatro? Penso neles. Ontem no fim da noite noite, depois do ensaio, Carlos Escher e Nenê pintavam cenários e discutiam a necessidade de outra”demão” após a secagem. Da porta que se volta para o centro de São Paulo, vi na imagem do teatrinho de Arena vários tempos. Hoje abriremos as portas. A ocupação atual tem a finalidade de reunir gente animada, com vontade de aprender. Batizei assim nossa tentativa de “escola”: Núcleo de Estudos Anatol Rosenfeld. Razões de amor ao pensamento. Começo de canto é assobio.